Da boa

Quer dizer que o Aston Kutcher quer ser o Mr.Manson?

(Vi no Querido Leitor, que viu no te dou um dado)


Fobia

Escreve, apaga, escreve, apaga, escreve…

Aperto o botão ‘publish’ e revivo a antiga paranóia de ser mal compreendida. Seguida pela culpa de menosprezar a capacidade de entendimento dos outros. Substituída pela insegurança em relação à minha clareza.

Estava com saudade de ter um blog :)


Madame não gosta que ninguém sambe

“Qual é, segundo a etimologia, o sentido da palavra ‘bom’ nas diversas línguas? (…) descobri que, em toda a parte, a idéia de ‘distinção’, de ‘nobreza’, no sentido de ordem social, é a idéia mãe donde nasce e se desenvolve necessariamente a idéia de ‘nobre’ no sentido de ‘privilegiado quanto à alma’. E este desenvolvimento é sempre paralelo à transformação das noções ‘vulgar’, ‘plebeu’, ‘baixo’ na noção de ‘mau’.”

É o que Nietzche diz n’A Genealogia da Moral.

Daí eu acho estranho que ainda venha da esquerda acusações de “pobreza” do funk carioca (achei que essa idéia já tivesse caído em desuso, mas ouvi o papo duas vezes em 2008).

***

O Pedro Alexandre Sanches reproduziu e comentou trechos da entrevista do lingüista Marcos Bagno à Caros Amigos.  Uma das passagens pinçadas é esta:

“A discriminação pela linguagem é uma das pouquíssimas coisas que unem o espectro político de ponta a ponta. Numa pessoa de extrema esquerda ou de extrema direita, você vai encontrar as mesmas declarações a respeito da língua: que o brasileiro fala mal o português, que é preciso melhorar a maneira como a gente fala, que estamos estropiando a gramática.”

***

No mesmo dia, Tom Zé abriu para análise em seu blog a letra de “Classe Operária”:

Classe Operária
(TOM ZÉ)

Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária.

Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Os operários que se calem,
que procurem seu lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia que virá
e na felicidade dos operários.

Se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
Tom Zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária.

Distante e bondoso, Deus cuida de suas ovelhas,
mesmo que elas não entendam seus desígnios.
E assim, depois de determinar
qual é a política conveniente para a classe operária,
Tom Zé e o seu público se sentem reconfortados e felizes
e com o sentimento de culpa aliviado.

***

Algumas pessoas me lembram uma cena d’O Talentoso Ripley, em que a personagem da Cate Blanchet diz:

“The truth is if you’ve had money your entire life, even if you despise it, which we do – agreed? – you’re only truly comfortable around other people who have it and despise it. “


Super-heróis e gatos

Há alguns anos (quantos? três? quatro?), quando eu ainda morava no quadrilatéro sambístico paulistano, comecei a ouvir no ônibus garotas e garotos falarem sobre comunidades, perfis e escrepes. Eles chegaram sem óleo nem creme, mas com textos em caixa alta e fotos de pouca qualidade. E agora nós temos o Gato Velox, o Capitão Presença da banda larga. A inclusão digital chegou e o Orkut é o responsável.

***

lolcat_wires.jpgDaqui a algum tempo, quando seus netos estiverem estudando História da Internet I, nos trechos sobre o meio dos 2000 vão encontrar referências a image macros e memes, “embora muitos estudiosos discordem do uso do termo” (é como vai estar no texto de referência lá por 2044).  Como os lolcats. Explica a Wikipedia que são fotografias de um animal, em geral gatos, com uma legenda engraçada ou peculiar escrita num tipo de inglês torto, típico de não nativos da língua (bad english is the universal language, né Matias?).

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Acho que não existe maldade em dizer que é engraçado ver estrangeiros falando em uma língua que não dominam. Eu vejo que existe uma semelhança, por exemplo, entre o lolspeak e os poemas de Juó Bananère, escritos numa língua mezzo purduguês mezzo intaliano (dica: leia em voz alta que dá pra entender). O próprio autor era brasileiro, chamava Alexandre Marcondes Machado.

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Que sejam todos bem-vindos.


El perro cantante

Beatbox

Hoje em dia, qualquer um pode virar artista.

(peguei daqui)


Corrupção ativo-passiva

Lawrence Lessig, já faz um tempinho, está se dedicando a estudar corrupção. Ele fez uma palestra em Stanford sobre essa nova área (estou trabalhando em uma transcrição traduzida, mais tarde eu publico). Ao falar sobre como o dinheiro influencia a política, ele, citando Dennis Thompson, explica que afeta o processo racional:

“Se tem uma coisa em que os políticos são bons é em desenvolver um bem ajustado sexto sentido a respeito de como suas palavras afetam o público. E, enquanto 50% a 70% do seu tempo é gasto tentando levantar fundos, o sexto sentido tem esse foco também. ‘Que coisas eu devo dizer de acordo com o tanto de dinheiro que eu preciso levantar?’.”

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Um colunista da Slate está bastante revoltado com a imprensa americana (e canadense também). A polícia na dinamarca prendeu três suspeitos de armarem uma tentativa de assassinato contra um dos cartunistas que fizeram caricaturas do profeta Maomé. Os jornais dinamarqueses resolveram republicar os desenhos. Nos Estados Unidos, apenas dois periódicos de pequena circulação o fizeram.

“Porém, o mais traiçoeiro inimigo [da liberdade de imprensa] é o jornalista ou editor que, covardemente, não precisa que lhe digam o que fazer, porque ele ou ela já internalizou a necessidade de agradar – ou pelo menos de não ofender – a pior tirania de todas: a versão mais garantida da opinião pública”.

Person Lawrence Lessig
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Depois que estorou o escândalo das torturas em Abu Ghraib, o psicólogo Philip Zimbardo foi chamado para contribuir na procura de motivos para o comportamento daqueles soldados. No ano passado, ele lançou um livro, The Lucifer Effect: Understanding How Good People Turn Evil. Ele explica que o contexto da prisão – e fatores como conformismo, anonimato e tédio – foi decisivo para transformar soldados sem predisposição patológica em torturadores.

“Você tinha a CIA, os interrogadores civis e a inteligência militar dizendo aos reservistas: ‘Amoleçam esses detidos para interrogatório’. Esse tipo de ordem vaga é o equivalente de eu dizer aos guardas do SPE [Experimento de Prisão de Stanford]: ‘A prisão é de vocês’. Não havia nenhum superior dizendo ‘vocês têm de fazer essas coisas horríveis’. Acredito que as autoridades criaram um ambiente que deu aos guardas permissão para se tornarem abusivos (…)”.

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Com dimensões diferentes e diversas ressalvas, são três exemplos de “corrupção ativo-passiva”, um termo que eu acabei de inventar – não sei se existe um mais científico. É quando o corrompido se adianta ao corruptor; quando a vontade de agradar ultrapassa as ordens superiores. No trabalho, já vi bastante disso, momentos em que os mensageiros se tornam mais realistas que o rei. Sim, é um sistema que termina por premiar (ou pelo menos, não punir) quem age assim.

Mas, da minha parte, acho que vale a busca por evitar internalizar – o senhor, o chefe, o general.


Mar sob gelo fino

O Estadão de hoje traz duas matérias assustadoras. No caderno Metrópole, o tribunal do PCC revelado por escutas da polícia. E no Aliás, entrevista com José de Souza Martins sobre linchamentos. Uma frase dele, em especial, resume minha perplexidade sobre isso (e me lembrou imensamente A Ilha do Dr. Moreau):

A camada de civilização é muito fina. Tudo o que a gente chama de civilização, esse conjunto de valores, é muito frágil. Basta um acontecimento que rompa essa seda para que o ser humano primitivo que está ali, embutido não de maldade, mas de instintos, venha para fora. Porém, mesmo na reação instintiva, há regras.”


sociedade alternativa

Se existe uma coisa que o brasileiro pode ter para si que demonstra sua superioridade diante do resto do mundo é que, aqui, raramente uma pessoa iniciada em literatura vai defender a qualidade da obra do Paulo Coelho. Nós nem precisamos ler para saber seus livros são sinônimo de picaretagem, enquanto os gringos não perceberam e o levam a sério.

Eu não pretendo desafinar o coro. Mas eu o admiro cada vez mais. O artigo que ele escreveu para a Folha criticando a censura à biografia do Roberto Carlos – bem escrito, por sinal – foi o início dessa admiração. E sua auto-pirataria me conquistou definitivamente. Semana passada, a editora americana HaperCollins anunciou que estava colocando em seu site obras na íntegra para leitura (sem download), incluindo um do Coelho, The Witch of Portobello. Na matéria do NYTimes, o escritor diz que acredita que a generosidade se pague. É mais um caso do hippismo influenciando os rumos da internet hoje.

By the way, o Tropa de Elite – anti-hippie – ganhou o Urso de Ouro, apesar de eu, pessoalmente, não entender por quê. Acho que vou ali me sentir superior também ao júri de Berlim.


… and we’re back

Sim, blog novo. Vamos ver se dá certo.


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